Introdução
Durante muito tempo, as pessoas com deficiência foram
vistas como incapazes de aprender e de manifestar conhecimento, sendo a
elas denegado o acesso à cultura, tanto quanto ao lazer e à educação.
Na presunção de que essas pessoas nasciam por desígnio
divino, que existiam para espiar pecados ou faltas cometidas por seus
antecessores, nem se pensava em lhes oferecer meios de acesso à educação mais
básica, menos ainda ao conhecimento científico. Assim, as pessoas com
deficiência ficaram à margem da sociedade, isto é, asiladas e exiladas
socialmente em instituições ou longe dos ambientes sociais.
De acordo com Chicon e Soares (2003, apud LIMA et. ali. 2004, p.09-10), ao longo do tempo, a sociedade
demonstrou basicamente três atitudes distintas diante das pessoas com
deficiência:
[ ] inicialmente, seguindo a seleção biológica dos
espartanos, ela demonstrou menosprezar, eliminar/destruir todas as
crianças mal formadas ou deficientes; os bebês que nasciam com alguma
deficiência ou “deformação” eram jogados de uma montanha, eliminando-se, assim,
o que não era “perfeito”. Posteriormente, numa atitude reativa, provinda da
proteção e assistencialismo do Cristianismo, evidenciou-se um conformismo
piedoso; e, em seguida, já na Idade Média, o comportamento da sociedade
caracterizou-se pela segregação e marginalização da pessoa com deficiência,
operadas pelos “exorcistas” e “exconjugadores” da época, os quais acreditavam
que as pessoas com deficiência faziam parte de crenças demoníacas,
supersticiosas e sobrenaturais. (grifos nossos).
Afastadas do convívio social e sem a possibilidade de
estabelecerem eficientemente uma comunicação que as permitisse compartilhar
saberes e atuar contributivamente na construção da sociedade em que viviam, às
pessoas com deficiência foi negligenciado o acesso e, conseqüentemente, o usufruto
dos bens culturais, sociais, artísticos e educacionais que as poderiam ter
tornado, de fato, cidadãs.
Foi a partir desse entendimento preconceituoso sobre as
pessoas com deficiência que, historicamente, muitas barreiras atitudinais foram
construídas e consolidadas, podendo ser encontradas até hoje, nos mais diversos
ambientes sociais e sob variadas formas, dentre elas na própria comunicação.
De acordo com Gotti (2006), “As barreiras atitudinais são aquelas estabelecidas na esfera social,
em que as relações humanas centram-se nas restrições dos indivíduos e não em
suas habilidades”. (http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/txt/revistainclusao2.txt).
As barreiras atitudinais, portanto, partem de uma
predisposição negativa, de um julgamento depreciativo em relação às pessoas com
deficiência, sendo sua manifestação a grande responsável pela falta de acesso e
à conseqüente exclusão e marginalização social vivenciada por todos os grupos
vulneráveis, mais particularmente, por aquelas pessoas vulneráveis em função da
deficiência.
No
entendimento de Guedes (2007, p.31):
[ ] a perpetuação
das barreiras que reforçam a situação de dependência e exclusão a que as
pessoas com deficiência vêm sendo freqüentemente submetidas é causada pela
sociedade quando esta não busca promover soluções alternativas de
acessibilidade a fim de remover as barreiras que limitam ou impedem a plena
atuação dessas pessoas.
Uma vez presentes na comunicação, as barreiras atitudinais
podem levar à total exclusão de uma pessoa com deficiência, por exemplo, ao
deixar de oferecer o contato acessível com acervos bibliográficos, programas
artísticos e arquivos culturais socialmente construídos. Dependências como
essas incorrem em outros tipos de exclusão, de semelhante e maior gravidade,
como a exclusão do sistema de ensino, do direito ao trabalho etc.
Conforme Sassaki (2004, p.41), a
eliminação de barreiras comunicacionais é uma conseqüência da criação de
acessibilidades comunicacionais, definidas como sendo a ausência de barreiras:
[ ] na comunicação
interpessoal (face-a-face, língua de sinais, linguagem corporal, linguagem
gestual etc.), na comunicação escrita (jornal, revista, livro, carta,
apostila etc., incluindo textos em braile, textos com letras ampliadas para
quem tem baixa visão, notebook e outras tecnologias assistivas para comunicar)
e na comunicação virtual (acessibilidade digital).
Guedes (2007, p.29) ressalta ainda que o acesso à
informação também se vê prejudicado diante de barreiras atitudinais, uma vez
que elas estão:
[ ] localizadas na
profundidade das demais barreiras, enraizadas a ponto de competir com os
obstáculos concretos que comumente excluem ou marginalizam as pessoas com
deficiência dos processos naturais que promovem o acesso [ ] aos demais sistemas sociais gerais.
Portanto, o fato de a sociedade ainda conceber a existência
de barreiras na comunicação pode ser explicado, em parte, pelas dificuldades
que encontra em enxergar as pessoas com deficiência como sujeitos produtivos e
por creditar a elas o pejo da inferioridade, ambos comportamentos que
exemplificam barreiras atitudinais.
Segundo Werneck (2006, p.164), “Ainda não somos permeáveis a uma efetiva comunicação de mão-dupla com
pessoas em relação às quais nos sentimos superiores”. Uma vez sentindo-se
superior a essas pessoas, a sociedade deixa de estabelecer uma comunicação
eficiente, deixa de criar espaços de diálogo para ouvir as demandas das pessoas
com deficiência, colocando-se numa atitude que não permite a aprendizagem
mútua. Essa atitude de superioridade social, portanto, também é manifestação da
barreira atitudinal, a barreira que diminui as pessoas com deficiência,
inferiorizando-as, a fim de parecer superior a elas.
Na tomada de consciência de que as barreiras atitudinais
são mais freqüentes do que podemos pensar, o presente artigo lista algumas das
barreiras mais comumente encontradas na comunicação e oferece sugestões para
evitá-las, quando da oferta de áudio-descrição, técnica que descreve as imagens
ou cenas de cunho visual, promovendo acessibilidade à comunicação, também para
aquelas pessoas cegas ou com baixa visão.
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